Escrever material didático é uma enorme responsabilidade, porque aquilo que escolhemos apresentar será oferecido como conteúdo a milhares – quiçá milhões – de alunos. Assim, é comum que, no momento de selecionar textos e conteúdos, tremamos diante da tela, sem saber nunca qual é (ou se aquela foi) a melhor opção.

Dizem aqueles que já estudaram muito as formas de as pessoas se comunicarem que não existe, não existiu e não existirá conteúdo de comunicação absolutamente isento de opinião, posicionamento ou viés. Qualquer uso da língua, falado ou escrito, carrega consigo algum traço, algum toque, alguma tonalidade de quem escreveu ou falou… por mais que se evite. O mesmo se dá com o professor, em sala de aula: sempre haverá, a partir do material que ele usará como fonte, transformações que virão das experiências que viveu e das coisas em que acredita.

A conclusão disso tudo é que são muitas as variáveis que determinarão o que um aluno, na outra ponta da existência de um material didático, vai assimilar daquilo que lê e ouve. Por isso, talvez a melhor estratégia seja ter como foco ajudar na formação de um cidadão crítico, que seja capaz de selecionar daquilo que ouve quais são as coisas que quer carregar consigo. Um aluno que se sinta livre para ir além do material didático e da voz de seus professores e busque, ele mesmo, outras formas de ver, outros jeitos de encarar o mundo.

Então, caímos numa situação que parece paradoxal: é preciso, por meio de um material didático, tornar o aluno detentor da potência de extrapolar esse mesmo material. E vem a questão: como fazer isso? Essa potência de liberdade só pode vir de amostras da própria liberdade – um material didático, então, precisa ser o território da variedade, precisa expandir limites, apresentar o clássico e o moderno, o tradicional e o exótico, o antigo e o novo, o simples e o complexo, o formal e o informal. Somente com materiais que apresentam a vastidão do mundo é que se pode oferecer aos alunos a consciência da vastidão do mundo.

É comum que nos perguntemos, por exemplo, o que é mais interessante, ao propor um trabalho com texto: oferecemos um texto do universo do aluno, para que ele se reconheça, ou um texto clássico, distante da realidade dele, para que ele tenha acesso a algo que não viria por outros caminhos? A resposta talvez seja que é preciso oferecer os dois. O próximo porque não há engajamento sem que o aluno se reconheça, o distante porque não há aprendizado sem descoberta. E assim seguimos, na arduamente maravilhosa tarefa de ajudar a formar. Por um lado, com certa tranquilidade de saber das variáveis que existem entre o que escrevemos naquela tela em branco e a chegada aos olhos e ouvidos dos estudantes… o que divide conosco a responsabilidade e a dilui. Por outro lado, eternamente engasgados pela insegurança de jamais sermos capazes de atingir a perfeição – mas isso é parte da nossa humanidade e é isto que somos: humanos… e ensinar humanidade é também não temer que ela vá ali, de carona, nas entrelinhas de cada capítulo.