A Virgem Maria
 
O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa Casa e o administrador do cemitério de São João Batista.
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei
 
Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvi a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora.
 
Manuel Bandeira

Depois de lido o poema, ainda numa primeira leitura, e antes ainda de ele estar sob a pele, decantado, antes mesmo de tê-lo tornado reflexão e análise, a impressão é a de um susto, de uma ruptura e, ao mesmo tempo, de reconhecimento. Assim como ocorre com a leitura de outros poemas de Bandeira, a sensação que se tem é a de remexer gavetas nossas, onde estavam guardados, empoeirados, sentimentos como o medo da morte, a constatação da finitude e da solidão, a indiferença do mundo em relação às nossas fragilidades. Encontramos, nas palavras do poeta, o que de nós mesmos estava esquecido ou distante e que, no entanto, está dito ali. Em Bandeira reencontramos nossa saudade do tempo passado da infância, nosso tão humano medo diante do fim.

Em “A Virgem Maria”, estão presentes e condensadas várias características comuns da poética de Bandeira, desde aquelas que se referem à forma e à construção até outras relacionadas à temática. Chama a atenção, em primeiro lugar, a extensão dos versos, que é absolutamente irregular, bem como a quantidade de sílabas poéticas em cada um deles. Essa distância em relação à métrica fixa, no entanto, não significa poesia pouco trabalhada ou despreocupada com o som, com a musicalidade, com o ritmo. Já na primeira estrofe, nos quatro primeiros versos e no início do quinto, a aliteração em “k” é clara. Além dela, a anáfora aparece na repetição da preposição “com” que abre o segundo, o terceiro e o quarto verso. A sonoridade remete ao próprio som do escavar a terra, da enxada que golpeia o chão para fazer a cova que começa a surgir ali. A quebra da aliteração coincide com a renúncia, que é exatamente a representação do oposto, da luta – vã – contra aquilo que se reservava para o enunciador. A renúncia nasce na tentativa de frear os sentimentos de determinação irada de enterrar o eu lírico. O objetivo do oficial do registro civil, do coletor de impostos, do mordomo da Santa Casa e do administrador do cemitério de São João Batista, na determinação de promover o enterro, aparece em gradação, começando com o uso de pás e evoluindo para a escavação com os dentes.

Ainda como comprovação de ser “A Virgem Maria” um poema trabalhado, esculpido, as rimas internas aparecem em mais de um momento, como se pode perceber em “funda” e “renúncia”, “cova” e “fora”. A aliteração em “v” também aparece, já na segunda estrofe, no final do primeiro e em todo o segundo verso. A própria extensão do primeiro verso, bem como a ausência de pontuação em praticamente todo o poema, tem o efeito de provocar a leitura não segmentada, intensificando a sensação de ansiedade e de tafofobia, quase apneia, a absoluta inquietação do eu lírico. Não parece haver dúvidas em relação ao fazer artesanal de Bandeira, à sua luta esmerada com as palavras, para esculpi-las a partir da matéria-bruta do cotidiano.

Todos os tipos que aparecem escavando e preparando o sepultamento estão, de alguma forma, relacionados à morte dos cidadãos comuns. Eles personificam a face burocrática da morte, representam metaforicamente o acostumar-se, o movimento de tornar cotidiano o momento tão temido pelo eu lírico, que suspira de renúncia. A temática da aproximação da morte e os questionamentos sobre isso são comuns na poesia de Bandeira (algo natural para alguém que adoece aos dezoito anos e passa outros tantos a ser repetidamente desenganado por médicos). Como a cova é mais profunda que o suspiro de renúncia, o sepultamento metafórico de fato se dá, e a determinação dos indiferentes, a opressão do mundo se sobrepõe à resistência e à tentativa de agarrar-se à vida. As “Tábuas da Lei”, colocadas sobre a sepultura, são o coroamento do enterro, a constatação prática do fim.

Na segunda estrofe, porém, ocorre uma mudança na forma de olhar. A sonoridade seca das consoantes surdas que prevalecem na primeira estrofe dá lugar às sonoras e às nasais, que “musicalizam” a estrofe seguinte. E essa mudança de rumo não se dá só em relação aos sons, mas é também uma mudança da sombra em direção à luz, da aspereza em direção à doçura, do desespero em direção à esperança. Não é à toa que a segunda estrofe começa com a adversativa “mas”. Ela é diametralmente oposta à primeira. O caminho do poema vai de um primeiro momento negativo, frio, claustrofóbico e obscuro para um outro claro, aquecido e arejado. A cova e o sol são opostos perfeitos. Opostos também são os temas que compõem ambas as estrofes. Enquanto na primeira estão os profissionais com sua burocracia e praticidade, na segunda ganham espaço a espiritualidade e o subjetivismo.

É “lá de dentro do fundo da treva do chão da cova” que o enterrado escuta, vindo como que de longe, devagar e aos poucos, a doce voz da Virgem Maria. O diminutivo na palavra “voz” ajuda na construção de uma atmosfera mais agradável, mais amena, mais serena do que aquela apresentada ao leitor anteriormente. E é para dizer que há sol lá fora que a voz da Virgem Maria se pronuncia, num anúncio que, por sua simplicidade cotidiana, é quase maternal. Depois de enterrado e colocado no fundo da cova, debaixo do chão, depois de ver suplantado seu suspiro de renúncia pela opressão alheia, o eu lírico ouve a própria voz da esperança. E, como se não bastasse levar até a sombra a possibilidade do sol, a voz da Virgem Maria o faz insistentemente. O advérbio aparece grafado com letras espaçadas no poema, o que serve para enfatizar a insistência na chegada da esperança. O leitor, ao se deparar com a palavra longa e grafada com espaços entre as letras, necessariamente faz leitura mais demorada, intensificando o significado, concentrando ali a noção da insistência, imprescindível para tentar reverter a situação de opressão e amargura construída na primeira estrofe.

Aliás, a presença de advérbios em destaque – muitas vezes escritos solitários em um verso – é característica reincidente na poética de Bandeira. Tal uso se dá, por exemplo, em “Profundamente”, desde o título, em “Maçã”, no verso “Infinitamente” e em “A morte absoluta”, no verso “Completamente”, para citar apenas três exemplos. Outro movimento que não é exclusivo é esse que vai do sombrio ao luminoso, que aparece de forma muito parecida, por exemplo, no poema “Martelo”. As formas contraditórias também aparecem, de modo semelhante, em “Maçã”, por exemplo, já que a fruta tem dois lados contrastantes, paradoxais e, ao mesmo tempo, indissolúveis. Outro paralelo que se pode fazer entre “Maçã” e “A Virgem Maria” é o quanto somos levados pelo olhar para dentro da cova e depois para a visão do sol, assim como o observador em “Maçã” nos rapta o olhar e nos leva a visualizar a fruta com suas faces e o quarto.

Chama a atenção, também, a ideia de que é de dentro da cova que a voz se ouve, e é de lá mesmo que é possível perceber a possibilidade do sol. Ou seja, é de dentro do chão que surge o lirismo. É o próprio ato de desentranhar a poesia, tão característico de Bandeira. Num lampejo, num instante, o leitor é arrebatado para olhar o céu a se clarear: é o momento de trazer luz intensa – insistentemente iluminar – ao chão, à cova escura. Trata-se do instante de “alumbramento”, também presente aqui.

O fato de escolher a Virgem para anunciar a esperança é um traço da religiosidade que se apresenta em Bandeira. A santa aparece próxima, a falar com ele, numa experiência pessoal que desmistifica o sagrado, mas que não o afasta de um homem de formação religiosa. Trata-se de uma religiosidade despreocupada com os formalismos e com os ritos e os dogmas, mas sim uma espécie de religiosidade “dessacralizada”, com permissão para misturar-se ao profano.  Em Libertinagem, mesmo, há outro exemplo dessa forma tão característica de dialogar com o sagrado, em “O Anjo da Guarda”. Afinal, o anjo também se aproxima do eu lírico, permite-se ficar aos pés dele. E é um anjo “moreno, violento e bom – brasileiro”.

O poema é, como um todo, a concretização da desilusão e da melancolia em forma de palavras. A indiferença, a insensibilidade e a opressão estão representadas nas figuras que tentam cavar a cova e promover o enterro de um vivo. Do outro lado, aparece a vontade de mudança e de libertação da tentativa de aprisionamento. O prenúncio da morte, sua aproximação iminente e a insegurança causada por tal ameaça estão metaforizados na ação daqueles que escavam. A libertação, a esperança e o desejo de novos e diferentes tempos, na presença da Virgem Maria a anunciar a presença do sol. Embora, no poema, não haja o desfecho de saída da escuridão, o alento trazido pela Virgem é inegável. Segundo Adorno, em suas Notas de Literatura I, “aquilo que entendemos por lírica contém em si mesmo, quanto mais ‘pura’ ela se oferece, o momento da fratura. O eu que ganha voz na lírica é um eu que se determina e se exprime como oposto ao coletivo, à objetividade”. Então, “A Virgem Maria” é o lirismo mais puro, como quase tudo em Bandeira. Causa a cisão necessária para que nos reconheçamos como indivíduos ali, e para que sejamos capazes de nos reconstruir depois da queda, como uma estatuazinha de gesso se recompõe depois de sofrer. O fato é que, depois de lido o poema e decantados os seus sentidos, fica a sensação de que, apesar da opressão do mundo, apesar da rudeza com que convivemos em nossa certeza de finitude, apesar da passagem inexorável do tempo, apesar de tanto tentarem nos botar à parte da vida no seu sentido mais intenso – mesmo que não sejamos todos tísicos – há ainda a possibilidade de sol. E, mais do que tal possibilidade, mansamente esperançosa, há uma voz para nos avisar sobre sua presença.