Em “A flor e a náusea”, de Drummond, nasce uma flor na rua. Dela devem passar longe os bondes e os ônibus – ela deve ser protegida em sua singeleza, em seu frágil ímpeto de nascer no meio do asfalto. Materiais didáticos não nascem na rua, não rompem os asfaltos, não dão em um pé de livro, não emergem sem que ninguém contasse com esse nascimento. Quando, na escola, entre descobertas muitas, ficamos diante de um livro didático, mal pensamos em como aquele material foi parar ali. Na nossa inocente certeza de aluno, não perguntamos quem, por detrás daquela realidade em papel, escolheu cada texto, decidiu sobre a posição e sobre o local de cada imagem, pensou sobre exercícios e atividades, um a um.

Por detrás dessa realidade inimaginada, estamos, entre outros, nós. Isto é parte do que fazemos: abrimos um arquivo em branco e escrevemos sobre gêneros, fórmulas, espécies, obras, artistas, espaços, pessoas. Criamos algo com base em que alguém vai estudar. Ajudamos, da ponta de cá, a formar um monte de pessoas na ponta de lá – e não temos problema em saber que, para essas pessoas de lá, em suas mesas de escola, talvez não existamos… ou, então, existimos apenas muito abstratamente. Na ponta de cá, temos esse frio na barriga da responsabilidade de participar da formação de pessoas.

Nós somos um grupo de profissionais que jamais quer perder esse frio na barriga. Dele dependemos para sempre querer atingir o melhor dos resultados: sem esse senso de responsabilidade, talvez nos entregássemos aos caminhos mais curtos, mais simples, menos cheios de aventura. Escrever um material didático é, em parte, mostrar quem somos e como pensamos para um mar de pessoas em formação: pessoas que carregam suas complexidades e seus medos, suas dúvidas e acertos, seus gostos e ascos. Pessoas como nós – e tão diferentes, já que somos todos iguais e diversos.

São muitos os processos que envolvem a gestação de um material didático: ele precisa ser criado, surgir da imaginação de alguém, depois precisa se transformar em algo organizado visualmente, bonito e atraente, para ser lido por alguém. Mas esse assunto fica para o próximo texto, porque vai longe…